Na realidade, nem como assim tantos. Mas na pressão de arranjar um nome (sim, não houve tempo para pensar que ia ter um blogue) foi este que me surgiu. Estúpido? 'Tou nem aí!
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Nas nuvens
Eu já vi muitos filmes de George Clooney, mas a imagem que fazia «pop» na minha cabeça não era a de um homem extremamente sensual, como acontece a todas as mulheres que conheço. Não, durante muito tempo, esse galã consensual (ou devo dizer com sensual) não foi uma pipoca estaladiça e quente, antes murcha e pouco doce, embrulhada num cartuxo com um panfleto alusivo a Syriana. E, com esse nome, surge-me a imagem de um senhor gordo e nada atraente.
Eu não sei se já viram Syriana. Para vos ser sincera, acho que nem eu vi Syriana. Foi um daqueles filmes que assisti no cinema, numa espécie de encontro romântico desastroso. A partir daqui, as minhas recordações são uma grande nuvem cinzenta, onde a única coisa que quero partilhar é: cinema não rima com romance. E para que fique claro, e somente em abono da verdade, esse senhor gordo não era o rapaz na cadeira ao lado, mas sim o senhor na tela.
Com Up in the air, creio que está ultrapassado o trauma de George Clooney. Porque, de alguma forma, me revejo em Ryan Bingham. Ou melhor, nas experiências e filosofias de vida de Ryan Bingham. (E pronto, porque ele é, de facto, sensual).
Há um ano atrás tive a oportunidade de passar muitas horas em aeroportos, aterrar em muitos destinos, fazer check-in em vários hotéis. Uma vida onde o único denominador comum nas tarefas rotineiras é a palavra «movimento». São caras que fixas com sede, porque sabes que nunca mais às verás, são conversas que chegam a ser mais francas do que as com pessoas que conheces bem, porque sabes que nunca mais as verás, são momentos de diversão únicos, porque sabes que nunca mais as verás. E, o mais importante, são horas de reflexão produtiva, porque a única pessoa que realmente conheces, és tu.
E, no fim, dormes num quarto de hotel. Eu adoro hotéis e era capaz de viver num. Um copo no bar ao final da tarde, mais caras, mais conversas, música relaxante. Um duche, umas danças parvas enroladas na toalha, o som da televisão com programas estrangeiros, que achas parvo mas não consegues mudar de canal, e ter de dormir nua, porque o pijama ficou esquecido em casa ou não cabia na mala mas não faz mal, porque além do ar condicionado no máximo, existem os melhores edredons do mundo nos hotéis.
Uma sensação maravilhosa. Mas antes de irem a correr (ou devo dizer voar) ao abraço dessa vida, devo alertar que há uma condição para que tudo corra bem: sofrerem de dificuldades de ligação. Ou, como metaforizou Ryan e muito bem, levarem a mochila vazia.
Eu sofro disso. Na verdade, a maioria das vezes penso no quanto não gosto de pessoas e ainda recordo a primeira vez que senti a indignação da constatação: «as pessoas são más», uma frase que recorro mais frequentemente do que gostaria. E atenção, não posso descartar a minha quota parte de maldade, que aqui ninguém é (ainda) perfeito e continuo longe de conseguir um lugar no paraíso. Pois é, embora este ponto esteja mais do que discutido com a psicoterapeuta, os mecanismos para lutar contra as dificuldades de confiar nas pessoas estarem devidamente decorados e accionados, devo confessar que sou viciada no momento em que não conheço as pessoas.
Esse momento, onde as pessoas ainda não são, onde um «olá» é o ponto de partida e não um cumprimento recorrente e diário, sem sentido. Esse momento onde não custa voltar as costas, onde não custa o «adeus» e onde o «até breve» é o único chavão que se dá ao luxo de não ser verdadeiro. Onde pouco importa. Onde não te desiludem. Onde me sinto segura.
Por isso, Up in the air não veio fazer bem à minha capacidade de socialização. E acreditem que eu estava a torcer pelo final feliz. Veio antes acrescentar validade à minha teoria que, quando estabeleces uma ligação única com alguém, quando baixas os braços e dizes:
- «Bem, eu admito. Estava enganada e isto de gostar a sério de alguém é melhor do que andar por aí sem reconhecer as caras das pessoas. Não vou lutar mais contra isso, blablabla»,
é o princípio do fim.
Abriste a porta para a desilusão. E agora é uma bomba-relógio onde as cenas do próximo capítulo incluem partir o coração em pedacinhos, largar-te a mão e deixar-te cair, desamparada e desinteressadamente, no chão.
Directo das nuvens.
Nota - Este é uma das poucas caracterísitcas que desejo ardentemente que me mostrem que estou errada. Um dia. É que eu quero parar de desejar finais felizes e começar a acreditar neles, como únicos finais possíveis.
T2 para um e meio: conversas em família
Tenho partilhado aqui a curiosidade do Um relativamente à homossexualidade. Esta coisa do casamento passar a ser permitido deu-lhe a volta à cabeça. No bom sentido. É que pelo menos temos tido a oportunidade de debater o tema até à exaustão. E, a longo prazo, estou convencida que acontecerá uma de duas coisas graças às nossas conversas:
- Ou será um heterossexual muito tolerante.
- Ou um homossexual assumido.
À volta da mesa:
Um - Eu já pesquisei «homossexual» no computador.
Faço silêncio. Começo uma reza para que não se tenha lembrado de ir às imagens ou, caso tenha ido, para que tal preversidade não tenha ficado gravada na sua mentezinha ainda pura. Ou assim imagino.
Faço silêncio. Começo uma reza para que não se tenha lembrado de ir às imagens ou, caso tenha ido, para que tal preversidade não tenha ficado gravada na sua mentezinha ainda pura. Ou assim imagino.
Pai do Um - Ai sim, e então?
Em jeito de declaração:
Um - Não sou homossexual.
Meio - Bom saber... bom saber. - Shame on me. Devia ter contido um pouco o preconceito. Sempre disse que não me importaria nada se ele for homossexual. No entanto, reclamo o direito de chorar baba e ranho um diazinho inteiro, às escondidas. Depois disso, estou pronta e à disposição para conhecer um «genro» com o maior dos sorrisos e hospitalidade.
E é então que o pai se sai com a advertência:
Pai do Um - Olha filho, podes até não ser homossexual, mas tu vê lá se tens cuidadinho com a tua heterossexualidade que eu não quero ser avô tão cedo.
Tive de largar uma gargalhada. É o que se espera de um pai século XXI. «Podes até nem ser homossexual»? Como se, vá lá, fossemos dar um desconto por ele não o ser? E «vê lá se tens cuidadinho com a tua heterossexualidade»?, pois claro. Oito anos é a idade perfeita para se começar a falar de planeamento familiar. Ou não fosse o Um um pequenino acidente de percurso na adolescência.
Já vos disse que adoro as conversas deles?
Nota - E já agora, se for gay, ao menos que seja tipo estes da foto. É que se for para acabarmos com a raça humana, ao menos que acabemos em grande.
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Eu era capaz de ter esta vidinha...
Ai se era.
Vou ali beber um cafézinho com uma amiga, enquanto vejo a malta sair para as suas curtinhas horas de almoço. E quando eles fizerem aquela cara de dor porque está na hora de trabalhar mais um pouco antes de merecer o tão desejado fim-de-semana, vou ali ao MUDE.
É bom não se trabalhar numa sexta, não é?
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
E lá se foi o sonho americano.
Por favor, se conhecerem algum (mesmo mesmo mesmo giro) Philip Keith, de Massachusetts, digam-lhe que nunca mais deixe uma rapariga alcoolizada apontar um e-mail num pedaço de papel minúsculo. Desta forma, o reencontro, não tem como acontecer.
To my north-american visitors:
If you know any (really really really cute) Philip Keith, from Massachusetts, please let him know that he cannot let an alcoholic girl write an e-mail in a tinny tinny paper. The second date, will never happen that way.
E pronto, tenho dito. Agora sim, sinto-me capaz de parar de tentar decifrar os rabiscos a vermelho num papel pequeníssimo e muito maltratado. Vou ali guardá-lo ali na caixinha. Pelo sim, pelo não.
E pronto, tenho dito. Agora sim, sinto-me capaz de parar de tentar decifrar os rabiscos a vermelho num papel pequeníssimo e muito maltratado. Vou ali guardá-lo ali na caixinha. Pelo sim, pelo não.
Dona Júlia chamada ao gabinete da... da... nutricionista!
... A sua resposta está... certa!
Meio - Então e a dona Júlia veio aqui à consulta porque...*
Meio - Então e a dona Júlia veio aqui à consulta porque...*
Obesa de 53 anos com aparência de 100 e mentalidade de 10 - Ó dótora, eu quero emagrecer, mas já fui a nutricionistas e eles não prestam para nada. Têm a mania de nos pôr a passar fome e olhe que isso não é para mim porque eu cá desisto logo. É que não tenho mesmo paciência para dietas e essa coisa de comer direitinho não dá e então estava à espera que aqui houvessem coisas diferentes para eu emagrecer e...
Meio - Mas sabe... eu sou nutricionista.
Obesa de 53 anos e diarreia verbal diagnosticada - Ah, pois. É isso. É isso. Era uma consulta dessas que eu queria.
E porque é que só me apetece dizer asneiras?
*pergunta ingrata de se fazer quando, na cadeira à nossa frente, está alguém com 100 quilos, eu sei. Vida de nutricionista. Deixo como nota que a resposta certa é: quero (um enfatizado MUITO é sempre bem-vindo) emagrecer.
*pergunta ingrata de se fazer quando, na cadeira à nossa frente, está alguém com 100 quilos, eu sei. Vida de nutricionista. Deixo como nota que a resposta certa é: quero (um enfatizado MUITO é sempre bem-vindo) emagrecer.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Hoje a festa é no deserto.
Era assim: o deserto. Ela nunca tinha pisado as areias do deserto, mas sabia que era lá que estava. As cores, meio pastel, a aridez, o sufoco. Olhar, olhar e não ver nada. Não sentir ninguém. Estava assim: no deserto.
Viu um cadeirão. Era verde, como se pertencesse à casa de uma avó. Não a sua, ou talvez da sua. De uma avó qualquer. Viu um cadeirão verde e achou que era a sede do deserto. Alucinações: quando a tua própria mente te mente. Prega partidas. Avançou, não sei se segura de que estava um cadeirão verde no meio do deserto, se apenas decidida a comprovar a sua sanidade mental, mostrando que não estava a porra de cadeirão verde nenhum, ali, no meio do deserto.
Os pés descalços enterravam-se num milhão de grãos. Areia. Tornava incrivelmente difícil a chegada ao cadeirão. Mas ela continuava. Segura ou decidida. Eu não sei. Eu não sou ela. Ela é outra pessoa. Eu não sei quem ela é. Eu já disse que não sei.
Quando lá chegou, curvou-se. A sua coluna dorida prestes a moldar-se ao encosto; o seu rabo, firme à força de tanto pontapé, prestes a consolar-se no tampo forrado a verde.
E o verbo «sentar» materializou-se. O cadeirão verde não se esfumaçou. Era um cadeirão verde no deserto. O que fazia a merda de um cadeirão verde no deserto?
Recostou-se. Primeiro hirta, com nítido incómodo, até conseguir suavizar os músculos e relaxar. E foi só então que ouviu a voz.
- Exige esforço.
Um som sem emissor visível. Como a voz de Deus, se nele acreditasse.
- O quê? - perguntou com medo. Baixinho, sem acreditar que falava com alguém, no meio do deserto..
- Caminhar acompanhado.
Meditou, alheia ao tempo que estava a tomar à voz. Finalmente, fez um som encorajador. Acho que disse:
- Percebo.
- Percebes?
- Percebo. Exige esforço... - acho que não entendeu. Apenas deu a entender que entendeu.
- Exige. E, na mesma, sentirás o calor, o sufoco. Verás que tudo isto te esmaga.
- Então não merece o esforço.
- A recompensa é boa.
Calou-se. Calaram-se. Ela não perguntou o que era. Estava longe, alheia à voz, a si, ao cadeirão e a todo o mundo.
- O deserto... - disse. - O deserto nunca mais será o deserto.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Não.
Meio - Gosto da Patty. - e sim, refiro-me àquela personagem argentina que, à falta de outro mérito maior, punha o meu telemóvel a receber mensagens ao sábado de manhã.
Um - Gostas? Então és homossexual.
Eu não entendo a obsessão do Um com a homossexualidade. Mas sei a resposta dele à pergunta da ILGA.
A avaliar pela naturalidade da conversa, é não.
A menina com cor-de-canela e nome de flor
Acho que ainda não partilhei isto, mas estou completamente apaixonada.
Por uma bebé.
É.
Era capaz dar-lhe beijinhos todos os dias e ficar a olhar horas para o raio da miúda.
E acreditem. A parte estranha é que:
- Eu não gosto assim tanto de bebés - pronto, tenho dito. - Ou achava que não gostava.
Agora sim, estou confusa.
Eu acreditava piamente que o meu instinto maternal se havia esgotado quando tive o Um e sempre desejei que o próximo homem com quem tiver uma relação daquelas para valer, já venha com uma menina feita - e criada! - para fazemos uma espécie de «o meu + a tua = os nossos» (sim, sim, eu observo os pais dos colegas do Um)
Mas esta é o primeiro bebé do gang. Acho que é isso.
Eu sei, eu sei que já tive o meu e que, tecnicamente, isso faz de mim a primeira mãe do grupo. Só que quero aqui dizer uma coisa: eu não conto, ok? É que quando fui mãe, ainda não estava decretada a época oficial de acasalamento. Pelo que, na prática, este é o primeiro bebé do grupo!!!
... E calha de ser SO DAMN CUTE! E só me faz lembrar canela. Canela! A cor, a doçura, o beicinho, o cheirinho... ai.
Por isso, sim, este post é um mero desabafo ao estilo diário de Paloma. Desculpem-me, mas teve de ser. Eu tenho resistido e fui até muito discreta no primeiro post sobre ela!
Agora, resta-me sugar o raio da miúda nas próximas semanas. E nos intervalos, rezar aos santinhos para que o Um não vá direitinho à Segurança Social pedir uma nova mãe. Por ciúme.
Meio - Olha, vou levar esta bebé para viver connosco, pode ser? (Pergunta parva, eu sei, mas não resisti)
Um - Humpf! Deves! - Sim, ele não conseguiu reprimir a impertinência na resposta
E lá continuou, serenamente, a jogar na Playstation emprestada, falando de Aimar, Luisão e David Luiz como se, isso sim, fossem assuntos que lhe realmente lhe interessassem.
Dois meses, três trabalhos.
Mudo de trabalho e tenho uma certeza:
O café das nove não saberá ao mesmo.
Mas pelo menos agora tenho um emprego
onde sou recompensada como gente crescida.
E o futuro...
e o futuro aqui tão perto.
O café das nove não saberá ao mesmo.
Mas pelo menos agora tenho um emprego
onde sou recompensada como gente crescida.
E o futuro...
e o futuro aqui tão perto.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
O meu coração romântico recomenda:
An Education provou-me que são precisos apenas dois minutos em cinema para nos fazer viver, literalmente, uma chuva de sentimentos inenarráveis. E se não chegassem, tinha várias oportunidades ao longo dos outros 93, que nos transportam naquela suavidade responsável por um sorriso permanente nos lábios e um duradouro aperto no coração.
E depois, Paris, sempre e ultimamente Paris. Uma cidade maldita que não me seduziu à primeira ida, somente porque ainda não existia em mim a vontade de despertar para o que realmente importa neste mundo. Em An Education, foi a vez do Sena, dois copos de vinho e um aprumo de toilette me darem a volta às entranhas, ali para os lados do coração. E fez-me desejar que a tolice natural do 16 anos, só desta vez, desse certo. Fez-me torcer para que as viagens pela Europa, os jantares em bons restaurantes, umas gotas de Channel e um pezinho de dança nas melhores festas da cidade, rodopiando nas mãos de um sedutor mal intencionado fossem, só desta única vez, um destino, e não um caminho para uma eventual desgraça.
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