quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Hoje a festa é no deserto.

Era assim: o deserto. Ela nunca tinha pisado as areias do deserto, mas sabia que era lá que estava. As cores, meio pastel, a aridez, o sufoco. Olhar, olhar e não ver nada. Não sentir ninguém. Estava assim: no deserto.
Viu um cadeirão. Era verde, como se pertencesse à casa de uma avó. Não a sua, ou talvez da sua. De uma avó qualquer. Viu um cadeirão verde e achou que era a sede do deserto. Alucinações: quando a tua própria mente te mente. Prega partidas. Avançou, não sei se segura de que estava um cadeirão verde no meio do deserto, se apenas decidida a comprovar a sua sanidade mental, mostrando que não estava a porra de cadeirão verde nenhum, ali, no meio do deserto.
Os pés descalços enterravam-se num milhão de grãos. Areia. Tornava incrivelmente difícil a chegada ao cadeirão. Mas ela continuava. Segura ou decidida. Eu não sei. Eu não sou ela. Ela é outra pessoa. Eu não sei quem ela é. Eu já disse que não sei.
Quando lá chegou, curvou-se. A sua coluna dorida prestes a moldar-se ao encosto; o seu rabo, firme à força de tanto pontapé, prestes a consolar-se no tampo forrado a verde.
E o verbo «sentar» materializou-se. O cadeirão verde não se esfumaçou. Era um cadeirão verde no deserto. O que fazia a merda de um cadeirão verde no deserto?
Recostou-se. Primeiro hirta, com nítido incómodo, até conseguir suavizar os músculos e relaxar. E foi só então que ouviu a voz.
- Exige esforço.
Um som sem emissor visível. Como a voz de Deus, se nele acreditasse.
- O quê? - perguntou com medo. Baixinho, sem acreditar que falava com alguém, no meio do deserto..
- Caminhar acompanhado. 
Meditou, alheia ao tempo que estava a tomar à voz. Finalmente, fez um som encorajador. Acho que disse:
- Percebo.
- Percebes?
- Percebo. Exige esforço... - acho que não entendeu. Apenas deu a entender que entendeu.
- Exige. E, na mesma, sentirás o calor, o sufoco. Verás que tudo isto te esmaga.
- Então não merece o esforço.
- A recompensa é boa. 
Calou-se. Calaram-se. Ela não perguntou o que era. Estava longe, alheia à voz, a si, ao cadeirão e a todo o mundo.
- O deserto... - disse. - O deserto nunca mais será o deserto. 

2 comentários:

Lurdes disse...

eu quando leio o que escreves...nunca percebo porque não começas um livro de short stories... sim porque eu agora quero saber o que fazia a porra de um caldeirão verde no meio do deserto...

AP disse...

Muito loucoooooooooooooooooooo

Beijinhos para ti e para o UM :)